O tempo e o luto: a história de uma dor

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Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história” (Hannah Arendt)

(Este texto é inspirado em uma história real e foi devidamente autorizado pela paciente)

Laura perdeu o marido há 12 anos, às vésperas de seu aniversário de 34 anos. Um ataque fulminante o levou repentinamente, em meio a uma vida cheia de projetos, carreira em ascensão, alegrias recém conquistadas. Num instante, Laura viu tudo o que conhecia, e amava, se desfazer. Para os filhos, na época com dois e sete anos de idade, precisava explicar aquela perda, aquele vazio para o qual ela mesma ainda não havia encontrado palavras. Nada parecia fazer o menor sentido. Em meio a dor que a dilacerava, papeladas, burocracias, seguro de vida, pensão, partilha de bens, disputas judiciais…. Parecia não haver tempo para a sua dor, o luto precisaria ficar para depois.

Olhava os filhos… A tristeza, o medo e fragilidade que via naqueles olhinhos antes tão vivos e risonhos, lhe faziam ter uma certeza: precisava sobreviver. Mais do que nunca seus filhos precisariam dela, era seu dever de mãe fazê-los felizes, amenizar suas dores. Sabia que, para isso, precisava colocar a sua dor de lado, suportar a ausência, focar no que precisava ser feito e seguir. Precisava seguir, chorar teria que ficar para depois.

De fato, Laura seguiu. Com o valioso suporte de sua família, em meio a abraços amigos e visitas – que com o passar dos dias iam ficando cada vez mais esporádicas – Laura seguiu. Retomou o trabalho, deixava os filhos na escola, pagava as contas no fim do mês, cuidava, amava, compensava. Agora estava ainda mais ocupada do que antes. Como a base sólida que sustenta uma casa Laura sentia que não podia desabar. E seguiu suportando, a dor, a saudade, a ausência. Nas piores noites até chorava, mas logo descobriu que podia ocupar-se até a exaustão, cair na cama e dormir, dormir muito, dormir para não pensar, para não sentir. Os remédios que o psiquiatra lhe receitara eram ótimos aliados: um comprimido e apagava. Mais dois comprimidos ao acordar e o dia passava sem grandes emoções. Medicada em excesso – porque a tristeza era grande e exigia doses fortes, dizia seu médico – tudo lhe parecia um pouco estranho, distante. Alegria, tristeza, satisfação, esperança, objetivos, sonhos, agora eram meras palavras cuja força vagamente recordava. Ajudar os filhos a seguir em frente e compensar a dor da falta de um pai haviam se tornado sua missão de vida. Não seria agora que se permitiria cair. Então, quando a tristeza lhe invadia o peito, quando alguma data lhe trazia recordações do marido falecido, quando os pesadelos vinham, Laura se ocupava ainda mais, fazia algumas horas extras no trabalho, tomava um comprimido a mais, e ao final daquele dia ruim, caía num sono profundo.

E assim, a vida seguia. Seus filhos estavam crescendo e apesar do aperto em seu peito e das dores físicas que começava a sentir, Laura acreditava estar fazendo um bom trabalho. Sentia que aos poucos, com o passar dos meses e anos, a vida havia encontrado uma fresta entre a saudade e a dor. Agora, aos 46 anos, sentia que se não fosse pelas constantes dores físicas e as crises de ansiedade que surgiram nos últimos anos, poderia dizer que tudo voltara a normal. Mas seu corpo enfraquecido, a insônia, as hérnias de disco, os joelhos que pareciam já não lhe sustentar, eram a lembrança viva de que algo não ia bem.

Laura já havia lido que a dor do luto poderia se tornar dor física. Na época aquilo não lhe fazia nenhum sentido. O que uma coisa teria haver com a outra? A psicóloga que escrevera aquilo certamente havia exagerado um pouco. Contudo, agora, após inúmeras avaliações médicas, tratamentos alternativos e remédios que pareciam nunca aliviar suas dores, Laura lembrou-se daquele texto que lera logo após a morte de seu marido. Teria seu luto se transformado em dor física? Será que isso seria mesmo possível? Após mais alguns meses de dor, exames e remédios, Laura decidiu que precisava tentar algo novo, aquilo não estava resolvendo. Iria procurar uma psicóloga, torcia para que ela pudesse lhe ajudar.

Com alguns receios e resistências, dúvidas e expectativas, lá estava Laura para a sua primeira sessão. Chorou muito. Nem sabia que a morte do marido, que acontecera há tantos anos, ainda lhe doía tanto. Certamente a psicóloga lhe diria que sua depressão havia piorado e lhe encaminharia para algum psiquiatra. Após 12 anos de medicação psiquiátrica, Laura sabia que não deveria ter parado de tomar o remédio, muito menos, sem a supervisão de seu médico. Mas estava cansada de não sentir, a medicação estava prejudicando seu estomago e quando este também começou a doer, resolveu não mais seguir com o tratamento. Iria tentar uma Terapia do Luto, talvez fosse isso, talvez precisasse chorar e viver o luto por seu marido. Em seu íntimo sabia que, de fato, nunca havia mergulhado fundo nessa dor.

Conforme ia contando sua história, dava-se conta do quanto havia suportado e do porquê havia calado tanto pesar. Sentia o sofrimento tomar seu corpo, e quando as lagrimas lhe dificultaram respirar compreendeu o peso da dor que seu corpo carregou por tantos anos. A psicóloga lhe disse que quando a dor não consegue tornar-se palavra, quando não conseguimos expressar o luto (no momento em que a perda acontece); quando não conseguimos chorar, expressar tristeza, raiva, medo, angustia, pesar, desânimo etc, todos esses sentimentos seguem dentro de nós, pesados, densos, e em algum momento, não sendo verbalizados, tornam-se sintomas físicos. Ahh, então era isso. Talvez a dor nas costas e o peso que seus joelhos pareciam não mais suportar fossem sua dor, seu luto pedindo caminho. Sim, aquilo parecia fazer todo sentido. Laura sabia que não estava bem resolvida com sua perda. Mas também sentia medo: após 12 anos, quem entenderia que ainda pudesse estar chorando pelo marido? As pessoas já haviam seguido com suas vidas, ela mesma já tinha retomado tanta coisa, como poderia agora permitir-se ficar enlutada? Laura também temia se entregar à dor e desenvolver depressão. Será que iria aguentar? A dor e tristeza pareciam tão grandes…tinha medo de sucumbir.

A psicóloga lhe explicou que não há um tempo certo para o luto, para quem perde – e não elabora a perda – será sempre como se a morte tivesse acontecido na semana anterior. O tempo do luto não cabe nos relógios do mundo. Mas foi só quando a psicóloga lhe falou que os sintomas do luto são muito parecidos com os da depressão (tristeza, desanimo, angústia, insônia, falta de disposição para participar de festas e sair com amigos…) que Laura entendeu porque todos aqueles anos de medicação pareciam pouco lhe ajudar. Não estava deprimida, estava enlutada! Sentiu alívio, ao mesmo tempo em que se perguntava o que deveria fazer então… Como se faz para viver um luto? Deveria simplesmente deixar a dor vir e chorar? Será que suportaria? Estava com medo, mas sabia que seu corpo pedia por aquilo, sua dor pedia passagem. Aconselhada pela psicóloga, Laura deixou que a dor viesse, intensa, densa, implacável. Chorou muito, de tristeza, de saudade, de raiva, de pena, de cansaço. Suas lágrimas tinham tantos nomes e ela descobriu que tinha tanto a dizer.

As próximas sessões de psicoterapia e aconselhamento do luto foram carregadas de histórias, lembranças boas, sorrisos entre lágrimas, mágoas guardadas, questionamentos, raivas contidas, angústias, saudades do passado e de um futuro que nunca pode acontecer… Eram tantos os sentimentos, emoções, pensamentos e palavras que nunca haviam sido ditos. E Laura foi falando e falando, e sentindo. A psicóloga lhe conduzia, algumas vezes segurava sua mão, outras a incentivava a ir adiante sozinha, mas estava sempre ali, a fazendo sentir-se segura e amparada em seu sofrimento. Laura descobriu que aquilo era exatamente o que precisava. Mais do que remédios para não sentir, mais do que remédios para sorrir, ela precisava chorar, abraçar e acolher sua dor. Após anos cuidando da dor dos filhos, sabia que agora tinha que cuidar da sua. Precisava desse cuidado, merecia esse cuidado.

Depois de algumas semanas e muitas e muitas palavras e lágrimas, Laura foi percebendo que o luto já não ocupava mais seu mundo todo. Já estava sobrando espaço para alguns sorrisos, já estava conseguindo conversar com a família e com os amigos sobre sua perda, não queria mais silenciar. Aquele amor, a história que vivera ao lado de uma pessoa tão especial, merecia ser contada. Sentiu-se grata pela oportunidade que tivera, pelos anos felizes que compartilharam, por tantos bons momentos que, agora sabia, sempre fariam parte de sua história. E esta, viveria para sempre.

As crises de ansiedade passaram a acontecer cada vez com menos frequência. Seu corpo – que já não precisava mais ser a via de expressão de seu sofrimento – foi se recuperando. A insônia não era mais um problema. Após aqueles poucos meses de terapia a vida havia adquirido um colorido que há muito desconhecia. Nada voltou a ser como antes, mas agora Laura via um recomeço possível. Aliás, Laura passou a gostar muito dessa palavra: recomeço. Naturalmente, de vez em quando alguma data, algum cheiro, alguma música, algo corriqueiro do seu cotidiano lhe trazia a lembrança de seu marido. Nesse instante a saudade a visitava e trazia junto consigo, não mais o desespero e a dor, mas um sorriso sereno e algumas lágrimas, daquelas que só pode chorar quem um dia já viveu um grande amor.

(Este texto é inspirado em uma história real e foi devidamente autorizado pela paciente)

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